Venezuelanos nos EUA vivem sob constante ameaça de deportação após a captura de Maduro

A queda do ditador não trouxe alívio: com o regime em colapso e o país em caos, milhares de venezuelanos enfrentam o risco iminente de serem enviados de volta a uma nação ainda instável e perigosa.

Ricardo de Moura Pereira

1/10/20263 min read

A imagem de Nicolás Maduro algemado, sendo levado por agentes federais americanos para um tribunal em Nova York, correu o mundo em 3 de janeiro de 2026. A ousada Operação Absolute Resolve — uma incursão militar dos Estados Unidos em Caracas que capturou o presidente venezuelano e sua esposa Cilia Flores — foi celebrada por grande parte da diáspora venezuelana nos EUA. Em bairros como Doral, na Flórida, bandeiras tricolores tremularam em festas improvisadas. Para muitos, era o fim de um pesadelo de mais de uma década.

Mas, uma semana depois, o alívio deu lugar à angústia. Enquanto Maduro enfrenta acusações de narcoterrorismo, tráfico de drogas e posse de armas em um tribunal federal, centenas de milhares de venezuelanos que fugiram do regime chavista continuam sob ameaça iminente de deportação. A queda do ditador não alterou a política migratória dura do segundo mandato de Donald Trump — pelo contrário, parece ter dado novo fôlego a ela.

O Departamento de Segurança Interna (DHS), sob a secretária Kristi Noem, mantém a linha: a Venezuela estaria “mais livre hoje do que ontem”, e os beneficiários do antigo Temporary Protected Status (TPS) — que protegia cerca de 600 mil venezuelanos com autorização de trabalho e suspensão de deportação — devem “voltar para casa e reconstruir o país”. O TPS para a Venezuela, concedido inicialmente em 2021 e ampliado em 2023 sob Biden, foi terminado em etapas ao longo de 2025, com aval do Supremo Tribunal Federal em outubro. A decisão foi mantida mesmo após a captura de Maduro.

Organizações de direitos humanos e líderes comunitários alertam: o país ainda vive sob transição caótica. Delcy Rodríguez assumiu como presidente interina, mas o aparato repressivo do antigo regime permanece intacto. Relatos de violência em Caracas, incerteza institucional e a presença de figuras como Diosdado Cabello mantêm o temor entre exilados. “Maduro caiu, mas os torturadores, os esquadrões de morte e a máquina de repressão continuam lá”, diz uma ativista venezuelana em Miami, que pediu anonimato por medo de retaliação contra familiares.

Em cidades como Miami, Chicago e Nova York, onde a comunidade venezuelana é numerosa, o pânico se instalou. Voos de deportação para a Venezuela, que já haviam sido retomados antes da operação, não foram suspensos. O prefeito de Miami, Eileen Higgins (democrata), classificou a manutenção da política como “imprudente, perigosa e errada” e pediu a reinstituição imediata do TPS. A secretária Noem respondeu que cada venezuelano pode solicitar status de refugiado — mas o teto anual para refugiados em 2026 foi fixado em apenas 7.500 vagas, um número historicamente baixo.

A administração Trump justifica a postura com argumentos de segurança nacional: a captura de Maduro seria prova de que o país pode ser estabilizado rapidamente, e a deportação de supostos membros de gangues como o Tren de Aragua (designada organização terrorista estrangeira) continua prioridade. No entanto, especialistas em migração apontam contradição: o mesmo governo que executou uma intervenção militar para “libertar” a Venezuela agora pressiona para que seus cidadãos retornem a um território ainda instável.

Para milhares de famílias, o dilema é cruel. Muitos construíram vidas nos EUA — empregos, filhos americanos, hipotecas —, mas vivem com o temor constante de batidas da ICE (Imigração e Alfândega). Alguns já optaram por sair voluntariamente, comprando passagens antes que a deportação forçada chegue. Outros lutam em tribunais, apelando a asilo ou outras proteções, em processos que podem durar anos.

A captura de Maduro marcou um capítulo histórico na relação EUA-Venezuela, mas não resolveu o drama humano da diáspora. Enquanto o ex-presidente enfrenta julgamento em Manhattan, venezuelanos comuns nos Estados Unidos perguntam: quando virá a verdadeira liberdade — não só para o país que deixaram, mas para o futuro que construíram aqui? Por enquanto, a resposta segue em aberto, e o risco de deportação, mais presente do que nunca.