Groenlândia rechaça “sob nenhuma circunstância” apropriação pelos EUA e aposta na Otan para reforçar defesa no Ártico
Groenlândia rejeita “sob nenhuma circunstância” controle dos EUA e reforça defesa coletiva pela Otan no Ártico.
Ricardo de Moura Pereira
1/12/20262 min read


Em declaração oficial divulgada nesta segunda-feira (12), o governo da Groenlândia rejeitou categoricamente qualquer possibilidade de transferência de soberania ou controle direto pelos Estados Unidos, afirmando que “não pode aceitar sob nenhuma circunstância” a ideia defendida pelo presidente Donald Trump. A posição surge em meio à escalada de tensões diplomáticas provocada por repetidas declarações americanas que classificam o território ártico como prioridade de segurança nacional, com argumentos de que a ilha poderia cair sob influência russa ou chinesa caso não seja “protegida” por Washington.
A resposta groenlandesa vai além da simples recusa: os líderes locais anunciaram a intensificação de esforços para garantir que a defesa da ilha ocorra exclusivamente no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da qual a Groenlândia participa por meio de sua integração ao Reino da Dinamarca. “Todos os Estados-membros da Otan, incluindo os Estados Unidos, têm um interesse comum na defesa da Groenlândia”, destaca o comunicado da coalizão governante, reforçando que a segurança do Ártico deve ser tratada de forma coletiva e alinhada aos compromissos da aliança transatlântica.
A declaração ecoa o sentimento majoritário da população local — pesquisas recentes indicam que cerca de 85% dos groenlandeses se opõem à integração aos Estados Unidos — e reforça a autonomia do território em relação a decisões sobre seu futuro. O primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen enfatizou em redes sociais que “a segurança e defesa da Groenlândia pertencem à Otan” e que essa é uma “linha fundamental e firme”.
O posicionamento ocorre em um contexto de crescente pressão geopolítica no Ártico, região que ganha relevância estratégica com o derretimento do gelo e o aumento da competição por recursos minerais e rotas marítimas. A Groenlândia, com sua posição privilegiada entre América do Norte e Europa, já abriga a base militar americana de Thule desde a Guerra Fria, mas Trump insiste na necessidade de “propriedade” plena do território, rejeitando soluções intermediárias como arrendamentos ou mera ampliação da presença militar existente.
A reação da Groenlândia soma-se às manifestações de apoio vindas de vários países europeus membros da Otan — entre eles França, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha e Reino Unido —, que emitiram comunicado conjunto defendendo a soberania dinamarquesa e alertando que qualquer ação unilateral americana poderia comprometer a própria existência da aliança. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, já havia advertido que uma tomada forçada equivaleria ao “fim da Otan” e da ordem de segurança estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Com reuniões bilaterais marcadas entre autoridades americanas, dinamarquesas e groenlandesas nos próximos dias, o episódio expõe fissuras inéditas dentro da aliança atlântica e coloca em xeque o futuro da cooperação transatlântica em uma das regiões mais sensíveis do planeta. A Groenlândia, por sua vez, busca transformar a crise em oportunidade para fortalecer sua defesa coletiva, sem abrir mão de sua identidade e soberania.