Canadá declara independência emocional: o antiamericanismo que abalou a aliança mais antiga do Ocidente
De tarifas punitivas a vaias no hino e boicotes cotidianos — como Trump transformou o vizinho mais próximo em um país que diz “nunca mais” aos EUA
Ricardo de Moura Pereira
1/10/20263 min read


Em pleno janeiro de 2026, a fronteira mais longa e pacífica do mundo — aquela que separa Canadá e Estados Unidos — parece mais simbólica do que nunca. O que era parceria econômica inquebrantável transformou-se, em apenas um ano, em fonte de profunda desconfiança mútua. O segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, impôs tarifas generalizadas de 25% sobre a maioria das importações canadenses (com 10% sobre energia), justificadas como combate ao fluxo de fentanil e imigração irregular — alegações contestadas por dados oficiais americanos que mostram menos de 0,2% das apreensões de fentanil na fronteira norte.
A gota d’água, porém, não foram apenas os números: foram as palavras. Trump repetiu, em entrevistas, postagens e declarações oficiais, que o Canadá “ficaria muito melhor” como o 51º estado americano. A sugestão, inicialmente vista como provocação, ganhou peso com as tarifas impostas em março de 2025 e as ameaças de dobrar as alíquotas sobre aço e alumínio. O ex-primeiro-ministro Justin Trudeau chegou a afirmar publicamente que o objetivo era “colapsar a economia canadense para facilitar a anexação”. Seu sucessor, Mark Carney, eleito em abril de 2025 em uma onda de rejeição ao “Trumpismo”, adotou o lema “elbows up” — referência ao gesto clássico do hóquei para se defender — como símbolo de soberania.
A resposta da sociedade canadense foi imediata e visceral. Pesquisas do Pew Research Center, realizadas na primavera de 2025, registraram a favorabilidade aos Estados Unidos em apenas 34% — o nível mais baixo desde 2002, empatado com o auge da oposição à Guerra do Iraque. Sondagens posteriores da Environics e Angus Reid indicaram que quase metade dos canadenses passou a ver os EUA como “inimigo” ou “nação não amiga”. O movimento #BuyCanadian explodiu nas redes: listas de produtos locais circularam em grupos de Facebook, supermercados destacaram itens com bandeiras canadenses, e províncias como Ontário e Colúmbia Britânica retiraram milhões em bebidas alcoólicas americanas (bourbon, vinhos californianos) das prateleiras.
O impacto econômico foi palpável. Viagens de canadenses aos EUA caíram cerca de 20-25% em 2025, segundo a Tourism Economics, custando bilhões à economia americana em estados fronteiriços como Nova York, Michigan e Flórida. Exportações canadenses para o sul despencaram 16% em meses iniciais, forçando diversificação acelerada: Carney intensificou laços com Europa, Índia e até China — esta última vista com cautela, mas como alternativa inevitável diante da imprevisibilidade de Washington.
O fenômeno não é isolado. Declínio similar na percepção favorável aos EUA ocorreu na França, Alemanha e Reino Unido, mas o caso canadense carrega peso único pela interdependência: cerca de 75% das exportações canadenses vão para o vizinho sulista. Historiadores lembram que o antiamericanismo tem raízes antigas — desde a rivalidade colonial até disputas comerciais recorrentes (madeira, aço, alumínio) —, mas 2025 marcou uma virada qualitativa: de irritação pontual para sentimento estrutural de traição.
Em Ottawa, o discurso oficial mudou. Carney declarou que “a velha relação de integração profunda acabou”. Nenhum político, nem mesmo o conservador Pierre Poilievre, pode se declarar abertamente pró-americano sem custo eleitoral. O hino americano continua sendo vaiado em arenas de hóquei; cafés trocam “americano” por “canadiano” no cardápio; e o boicote, mesmo que parcial, tornou-se expressão cotidiana de patriotismo.
Às vésperas da revisão do USMCA em 2026, o risco é claro: o que começou como guerra comercial pode cristalizar uma ruptura de longo prazo. Enquanto Trump avalia os custos domésticos de suas tarifas, do outro lado da fronteira um Canadá mais assertivo e menos dependente ganha forma. A aliança que sustentou o Ocidente por décadas agora convive com a pergunta incômoda: quanto tempo leva para que “vizinhos” se tornem apenas “vizinhos”?